Entregando-se ao amor
Depois de saciarem a sede, nadaram na pequena piscina, retirando o sal das roupas e do corpo. Kushina estava no paraíso, boiando naquela água suave e adorável, que deslizava por sua pele ressecada. Ela massageava o couro cabeludo, limpando-o e aliviando a coceira causada pelo sal. Fez o possível para pentear os fios vermelhos na água usando os dedos.
Kushina queria se despir para flutuar na pequena piscina enquanto a roupa secava. Minato disse que era uma ótima ideia para mais tarde. Agora, tinham que retornar à praia e montar um acampamento rudimentar que incluísse uma pequena fogueira, que deveria ficar acesa até que fossem resgatados. A julgar pela correnteza, Minato concluiu que o riacho desembocaria em algum local perto da orla. Isso significava que seria possível encontrar uma fonte de água próxima ao local onde acampariam. Uma vez que não possuíam recipientes para armazenar água, quanto mais próximos da nascente, melhor.
Depois de saciada a sede, Kushina percebeu que estava faminta e avisou a Minato.
E ele sorriu.
– Mais tarde nós cuidaremos disso. O corpo humano pode passar semanas sem comida, caso ainda não saiba.
Kushina fingiu estar horrorizada.
– Espero não ter que esperar esse tempo todo para comer.
– Nem eu – resmungou. Kushina revirou os olhos. – Não se preocupe. Vamos nos divertir muito tentando quebrar cocos e procurando crustáceos na praia. E, até onde sei, o tráfego nas Bahamas é bastante intenso. Aviões e barcos devem passar por aqui o tempo todo. Isso para não mencionar todos os esforços de resgate que serão acionados quando perceberem que não estamos na nossa linda cabine.
Ele se aproximou, ergueu o pesado cabelo molhado da esposa e colocou a mão quente em seu pescoço. Então, a trouxe para perto. Kushina elevou a boca e ele a beijou com doçura e profundidade. Um beijo que aliviou o espírito dela assim como a água límpida da nascente acalmou sua pele ressecada.
– Vamos ficar bem, Kushina – disse ele junto aos lábios partidos.
– Ah, Minato, eu sei que vamos.
Voltaram para a praia, uma caminhada breve, já que não tinham ido muito longe. O fim do riacho ficava cerca de 30 metros ao norte do monte de algas que marcava o local onde haviam chegado.
Começaram a coletar gravetos, galhos, algas secas, enfim, tudo o que pudessem queimar. Minato dissera que precisavam de combustível que queimasse por um longo tempo, como madeira, mas também de folhas secas e galhos verdes, que fariam bastante fumaça. A pira de sinalização teria que ser feita assim para iluminar como uma tocha quando fosse acesa.
Enquanto procuravam os materiais, exploraram o local. Encontraram uma espécie de caverna, um vinco talhado na pedra, longe o suficiente para que a maré alta não fosse um problema. Aquela seria a base do acampamento. Minato cavou um buraco na areia, margeou a beirada com um punhado de pedras e armou a fogueira no centro, que ficaria protegida pela caverna. Depois, fez outra fogueira menos a céu aberto, usando o espelho para canalizar os raios solares até que a chama se acendesse.
Levaram o sinalizador para alguns metros dali, em um local mais alto da praia onde a maré não alcançaria e onde eles pudessem chegar rapidamente quando fosse o momento de acender. Depois procurara uma quantidade suficiente de pedras para fazer o que ele havia sugerido antes: escrever “socorro” na areia.
Quando terminaram, o sol estava baixo, o que dava ao céu infinito uma tonalidade púrpura.
O gato cinza, que Kushina cismou de chamar de Nuriko, em homenagem ao personagem do anime Fushigi Yuugi, de Yuu Watase, ficava perto deles grande parte do dia, descansando à sombra do acampamento ou dando uma voltinha para investigar a pira de sinalização, que estava pronta para ser acesa.
Então, Minato afiou a ponta de um galho espesso e mostrou a Kushina como furar a casca do coco. Ele furou vários. Um ou dois tinham água doce e fresca, mas a polpa era dura e sem sabor. Minato disse que eles poderiam usar os cocos como recipientes. Não eram muito grandes, mas eram melhores do que nada.
– Espere aqui – disse ele.
Minato sumiu em meio às árvores. Kushina esperava que ele soubesse exatamente o que estava fazendo. Sentia-se cansada e ainda estava faminta demais, apesar de toda a água de coco. Não estava disposta a ir atrás dele e exigir que o marido a deixasse ajudar no que quer que fosse.
°
Havia se passado uma hora, talvez mais. Minato estava demorando muito. Ela retirou a polpa dos cocos e acendeu o fogo. Encarou as chamas por algum tempo, agradecida pelo calor confortante em seu rosto. Pensava nas crianças e dizia a si mesma que os veria novamente… e logo.
Em algum momento, Nuriko surgiu atrás dela, trazendo algo entre os dentes. Quando ele soltou, Kushina pôde ver que era um pequeno morcego morto. O gato sentou-se a sua frente e a olhou.
– Muito obrigada, mas não vou aceitar. Bom apetite – disse ela, pensando que poderia estar sendo precipitada em recusar a oferta.
Mas Kushina ainda não estava morrendo de fome. E poderiam encontrar algo melhor para comer amanhã. Certamente não precisaria dividir o morcego esquelético com um gato magro.
Nuriko pegou o seu troféu e deu as costas para ela. Carregou-o para longe e se esticou na areia para degustar a refeição.
Kushina apreciava a dança das chamas na fogueira, mas não conseguia parar de pensar quando tempo havia se passado desde que Minato saíra. Esperava que tudo estivesse bem, queria que ele retornasse logo.
E, como se os anseios dela o tivessem tocado, Minato apareceu. Ela o viu caminhando em sua direção, carregando algo.
Kushina se levantou para recebê-lo. Quando Minato chegou ao local iluminado pelo fogo, ela viu que o marido carregava um enorme lagarto morto e uma cobra maior ainda.
– Esse é o… jantar?
Minato abriu um sorriso maroto, tirou o canivete suíço do bolso e começou a limpar sua caça.
°
Eles assaram as carnes e comeram até ficarem satisfeitos. Tinha o suficiente até mesmo para Nuriko. O jantar estava delicioso e leve. Kushina jamais imaginara que uma carne de réptil poderia ser tão gostosa.
Minato contou a ela que havia medido a ilha, ido de um extremo ao outro. Estimava que tivesse 3 km de Leste a Oeste e talvez 4 km de Norte a Sul. E, até onde sabia, estavam sozinhos ali.
Terminada a refeição, caminharam pela praia até o riacho e beberam mais daquela água deliciosa e fresca. Depois, voltaram para o acampamento.
Deitaram junto à fogueira usando os coletes como travesseiros e olharam as estrelas, prometendo um ao outro que logo estariam em casa.
A barba de Minato arranhou a pele de Kushina quando a beijou. Ela não se incomodou, sentiu a leve umidade dos lábios de Minato e achou maravilhoso. Abriu a boca para receber a língua desejosa dele e, à medida que Minato ia lhe tirando a roupa, ela o incentivava, pedindo para que se despisse também.
Eles fizeram amor ali, perto do fogo, na areia. E quando Minato a penetrou, Kushina olhou-o nos olhos e pensou, de forma fragmentada, em como tinha sido tola de querer que esse amor fosse jovem, imaturo e inexperiente mais uma vez.
Não. O amor deles não era novo, era forte, profundo e verdadeiro.
O amor deles perseverou, assim como eles fariam naquele monte de terra arenosa no meio do Mar do Caribe.
Em um gemido feliz, Kushina chamou pelo marido. E Minato sussurrou o nome dela. E transbordaram os limites do mundo como um só ser.
°
Kushina acordou irritada e dolorida. Tinha certeza absoluta de que havia areia em cada milímetro do seu corpo – e Minato não estava a seu lado.
Ele apareceu momentos depois com um peixe que pescara usando uma lança improvisada. Seus pés estavam doloridos. Ele até tentou disfarçar, mas Kushina podia ver os cortes e arranhões, percebia a forma como ele caminhava, bem diferente dos passos largos e altivos de sempre. Minato garantiu que em alguns dias a pele estaria mais espessa, não que isso importasse, pois achava que seriam resgatados em breve.
– A essa altura, já perceberam que estamos perdidos, devem saber desde ontem por volta do meio-dia. Estarão à procura. E já nos preparamos para fazer bastante fumaça quando estiverem por perto.
Eles limparam o peixe, cozinharam e comeram dividindo tudo com Nuriko, é claro! Kushina brincou com o gato dizendo que ele iria acabar engordando se não se cuidasse.
Quando o peixe acabou e o fogo diminuiu, Minato sugeriu que fossem até a piscina para se lavarem um pouco. Kushina hesitou. Ela achava que, considerando a situação do pé dele, não deveriam ficar andando mais do que o necessário.
Minato estendeu a mão para ela.
– Vamos lá, não é tão longe. E um mergulho nos fará bem.
Kushina aceitou, a caminhada era curta e a água fresca aliviaria suas várias dores.
Mas eles não conseguiram chegar ao riacho.
Quando chegaram perto das árvores, Minato deu um grito agudo e pulou para trás. Kushina olhou para o chão a tempo de ver algo fino, escuro e sinuoso deslizando na direção da trilha.

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