Casamento em tormenta (fanfic releitura) - capítulo 7


Aflição

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– Mordida de cobra. – urrou com os dentes cerrados, o rosto contorcido de dor.

Minato sentou na areia para examinar dois pequenos pontos da picada no arco do pé esquerdo.

– Dói para diabo! – exclamou e olhou para Kushina.  – Você viu a cobra?

Ela piscou, teve um branco, recusava-se a acreditar no que havia acontecido.

– Você viu, Kushina?

Ela balançou a cabeça.

– Eu… sim. Por uma fração de segundos.

– Como era?

– Não sei… não era muito grande. Cinza... quase preta.

Minato estudou os machucados outra vez. Já estavam inchando e escurecendo.

– Deve ser algum tipo de víbora.

– Víbora? – repetiu ela, soando tola e se sentido apavorada. – Algo... venenoso, você quer dizer?

Minato lançou um olhar para ela.

– A cascavel é um tipo de víbora, mas não é o único. A picada de uma víbora é dolorosa e deixa dois pontinhos como estes aqui.

– Ah! – Kushina só pensava em como ele estava calmo. Ela queria gritar, mas se conteve. – O que... – Sua garganta fechou. Teve de forçar-se a engoliu em seco para conseguir falar. – O que faremos?

Minato pegou o canivete e fez cortes em formato de X sobre cada furo.

– Não tente isso em casa – avisou em tom de brincadeira.

Encorajando o fluxo de sangue, espremeu a pele.

– Preciso de algo para fazer um torniquete… – disse ele, tentando vencer a dor.

– Minha camisa?

– Maravilha. Vou precisar de um pedaço para amarrar em volta da minha perna.

Ela arrancou a camisa e rasgou uma faixa com os dentes.

– Que tal?

– Perfeito.

Kushina deu o pedaço de pano para ele e vestiu o que sobrou da camisa.

Minato amarrou o tecido rosa bem apertado na perna.

– Isso desacelera o movimento do veneno – explicou dando um sorrisinho irônico. – Se for bem-feito.

– Você é tão calmo…

– Não são muitas pessoas que morrem dessa forma, Kushina. Isso aqui foi apenas uma picada rápida, não deve ter havido muita injeção de veneno. Não foi perto de nenhum órgão vital, tampouco atingiu artérias. E não sou uma criança, que têm maior probabilidade de morrer por serem menores. Provavelmente vou sentir dor, ficar doente e com febre, mas vou sobreviver.

– É uma promessa?

 – Com certeza.

Kushina ficou pensando se o marido realmente sobreviveria como desejava que ela acreditasse. Porém, decidiu que não queria saber se Minato tinha certeza ou não.

Ele disse que quanto menos se movesse, melhor, já que o objetivo era interromper a circulação do veneno. O que significava ficar calmo e parado.

Kushina o ajudou a encontrar uma posição confortável ali mesmo, no alto da praia, e pegou os coletes para que ele descansasse em cima. Minato disse que a inclinação naquele ponto era perfeita e posicionou as pernas na direção das ondas, abaixo do nível do coração.

– Água? – perguntou ela. – Você está com sede?

Minato admitiu que sim. Kushina correu para buscar alguns cocos vazios e encheu-os d’água. Depois de beber tudo, ele refez o torniquete, explicando que queria diminuir a circulação e não estancá-la por completo.

Minato ajeitou a areia ao seu lado e ela se sentou. O ferimento havia inchado mais e estava ficando roxo e feio. Kushina tentou não olhar.

– Não se esqueça da fogueira. Temos que mantê-la acesa para que haja fogo quando precisarmos acender a pira de sinalização­ – disse ele.

A pira estava a cerca de 5m de distância, pronta e a espera do som de um avião ou da visão de um barco no horizonte azul.

– Eu verifiquei quando fui buscar as cascas de coco. O fogo está baixo, mas com uma boa camada de carvão. Colocarei mais lenha daqui a pouco.

– Muito bem.

Nuriko surgiu de dentro das moitas, deu um miado de saudação e se esticou na sombra perto de onde eles estavam.

Por alguns minutos ninguém falou. Os sons ao redor pareceram mais altos, como o bater de asas das gaivotas acima deles, o vai e vem das ondas e, ao fundo, o sopro infinito do vento.

– Esse lugar é muito lindo, Kushina – disse ele com suavidade.

Kushina olhou para o marido e deu um sorriso.

– Bem, essa viagem não saiu exatamente da forma que planejei…

– Você não pode negar que tem sido excitante.

– Tem razão. Uma emoção por minuto. Mas acho que já me diverti o suficiente. Gostaria de ir para casa, ver meus filhos, dormir em minha cama...

– Comigo ao seu lado, espero – Ele se curvou na direção dela.

– Sempre. Você sabe disso. Sempre ao seu lado. – Então, Minato deu um sorriso que era ao mesmo tempo terno e triste. – Kushina...

Ela tocou o braço dele.

– O quê?

– Quero que saiba que aprendi com essa experiência. Ver você boiando no oceano na noite da tempestade – Ele balançou a cabeça. – Você fica se culpando, mas a culpa não é bem sua. Eu é que a levei até lá.

– Eu não deveria ter...

– Shhh. Escute. Estou tentando dizer que sei que estava errado naquela noite e em diversas outras. Estou tentando dizer que se conseguirmos…

Kushina colocou a mão sobre a boca ressecada dele.

– “Se” não, quando.

Minato concordou, pegou a mão dela e beijou.

– Quando sairmos dessa, vou colocar o meu trabalho de lado sempre que você quiser. Encontrarei tempo para nós e para a nossa família, tempo no qual a Usuzuna Architectural Design não terá interferência. – Ele olhou nos olhos da esposa. – Eu te amo Kushina, mais do que a minha própria vida.

– Ah, Minato. Eu sei disso. E eu também te amo.

°

Não havia muito o que Minato pudesse fazer além de ficar calmo, descansar e esperar que o corpo reagisse ao veneno da cobra. Desatava e reatava o torniquete de tempos em tempos. Até que, finalmente, disse que acreditava já ter se passado uma hora, então o tirou de vez. Já tinha feito o máximo de efeito.

De vez em quando, Kushina levantava para verificar o fogo e trazer mais água, contudo, ficou ao lado de Minato na maior parte do tempo. Eles conversaram um pouco enquanto apreciavam as ondas deixarem a areia branca brilhando, molhada sob o sol tropical.

Muito antes de Minato demonstrar, Kushina já sabia que ele estava sofrendo de dor e da náusea crescente. Ele ficou febril e Kushina pegou o torniquete descartado, mergulhou-o em água fresca e umedeceu o rosto suado.

A essa altura, Minato havia se deitado na areia, gemendo e tossindo, sem ter como ficar confortável. Kushina tentou fazer com que ele ficasse quieto, lembrando-o sobre a importância de tentar diminuir a circulação.

Contudo, não conseguia fazê-lo aquietar-se. De qualquer forma, o veneno já estava em seu sistema. Mexer-se não o machucaria mais do que já estava.

Ele vomitou. Kushina ergueu sua cabeça e umedeceu mais uma vez seu rosto, fazendo-o beber um pouco de água, apenas para ter que segurar novamente sua cabeça para que vomitasse. Ela conseguiu arrastá-lo pela praia para uma faixa de areia limpa.

E isso foi tudo o que podia fazer: segurá-lo, dar um pouco de água entre os lábios rachados, limpá-lo quando o estômago revirava. E lembrar-se constantemente que ele sairia dessa, ficaria bem, que poucas pessoas morrem de picada de cobra, como Minato havia dito. Ele prometeu.

Ele prometeu que ficaria bem…

Minato estava deitado com a cabeça em seu colo, gemendo baixo. O sol estava quase alcançando o centro do céu quando ela ouviu o ronco do motor de um avião vindo de algum lugar do oceano infinito.

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