Terra firme
A força de Minato se renovou com a empolgação e o alívio, o mesmo aconteceu com Kushina. Eles recomeçaram a nadar, dando uma braçada após a outra na direção das ondas e da terra.
Era mais longe do que parecia e Kushina ficou exausta novamente em pouco tempo. Minato também.
Mas ali a corrente foi amiga deles. No final das contas, nadaram a favor da maré, às vezes diminuindo, outras aumentando a velocidade.
O sol pintou tudo de laranja e púrpura quando chegaram à praia e arrastados junto a uma pilha de algas.
Ficaram lá deitados, readquirindo fôlego, muito próximos do esgotamento absoluto, com pouquíssimas pistas de onde estavam. Mesmo assim, não paravam de sorrir um para o outro como dois idiotas.
– Terra firme – sussurrou ela, pegando um monte de areia molhada e apertando entre os dedos pálidos e enrugados. – Não pensei que fosse ver isso outra vez.
Minato sabia que precisavam levantar, encontrar abrigo do sol nascente. E água também. Haveria ali uma fonte de água fresca? Ergueu a cabeça e olhou na direção da margem da ilha onde estavam altos coqueiros. Ilha, ilhota ou recife – quão grande era aquele lugar? Era habitado? Se não fosse, teriam que armar uma boa fogueira de sinalização.
Tanto a ser descoberto. Tanto a ser feito.
E os dois ali, esgotados.
Kushina tinha olheiras escuras de exaustão sob os olhos enormes. Minato via os cílios molhados, piscando incessantemente. Entre um segundo e outro ela estava completamente adormecida, as bochechas afundadas na areia úmida, o cabelo pegajoso e embaraçado como a pilha de algas ao lado.
Ele não deveria, mas também fechou os olhos...
°
Kushina acordou sob protestos enquanto algo chacoalhava seus ombros.
– Kushina. Kushina você tem que acordar agora! – Minato. Ele a balançava e não a deixava dormir.
Kushina resmungou e tentou empurrar a mão do marido para voltar para baixo das cobertas que, estranhamente, pareciam não estar ali, mas ele segurou firme nos ombros dela e continuou a chamar pelo seu nome.
E havia algo errado com a cama. Parecia estar úmida e granulada. Não tinha coberta. O sol batia em sua pele, quente, fazendo-a sentir-se grudenta. Ela apalpou o próprio braço. Uma jaqueta. Estava vestindo uma jaqueta impermeável completamente úmida…
Os cílios de Kushina estavam grudados, mas ela conseguiu abrir os olhos. Seu pobre marido estava todo amarrotado, com os olhos cansados e crostas de sal no cabelo. Havia muita areia na barba dele. A camisa polo colada ao seu corpo, coberta por linhas de sal, como o cabelo.
O que acontecera atingiu-a como um golpe. Onde estavam. Um pedaço de terra sem nome no meio do Caribe. Seu corpo todo doía, a pele estava quente e coçava e algo latejava levemente acima de sua orelha esquerda. Batera em algo, não foi? No corrimão ou em algo do tipo quando a onda a derrubou do convés do Konogatô.
Kushina bateu em algo que a derrubou. E Minato teve que se jogar atrás dela…
A expressão em seu rosto deve ter revelado a repulsa que sentia, pois Minato exclamou:
– Não.
E Kushina sabia que ele estava certo. Sua autoindulgência os havia levado até ali. Ela queria um pouco de romance, a atenção apaixonada de Minato e ser cortejada pelo marido como quando era jovem. Já fazia algum tempo que desejava que o amor deles fosse como antes. Kushina tinha fome desse amor jovem, sentia falta como um buraco negro que consumia seu casamento.
Noite passada conseguiu ficar tão indignada por não ter o que desejava que saiu andando no convés de um navio para aliviar sua ira em meio a uma perigosa tempestade.
E lá estavam eles, isolados em alguma ilha desconhecida, a salvos graças à coragem, à força e às habilidades de sobrevivência de Minato.
E, nesta ilha, não havia mais espaço para autoindulgência.
A garganta de Kushina estava seca e dolorida, ferida de tanta água salgada que ingerira e expelira. Sua boca era como uma esponja dura, com toda umidade sugada há muito tempo. Ela engoliu, em busca de alívio com a saliva e disse com voz rouca:
– Estou bem. De verdade.
Minato sorriu com lábios secos e rachados. Kushina elevou as mãos até tocá-los e depois tocou os próprios, que estavam exatamente iguais aos dele.
– Que confusão – sussurrou ela.
– Vamos lá. Temos que sair do sol.
Ele gemeu um pouco, piscou para o céu azul.
– Que horas devem ser?
– Eu diria que já passam das 10h. – Ele a ajudou a ficar de pé e mancaram juntos, como dois velhinhos, na direção das palmeiras.
Quando chegaram à sombra das palmeiras e de outras árvores mais baixas, Minato a ajudou a sentar e tirou o colete salva-vidas. Disse para Kushina descansar ali, fora do sol.
– O que você vai fazer?
– Procurar por água.
Ela se levantou com o auxílio de um tronco de árvore.
– Vou com você.
Minato sacudiu a cabeça. Verificou os vincos e os bolsos do colete dela.
– Está muito abalada. Sente-se.
– Você nem tem sapatos, é perigoso ficar andando por aí no mato. – Ela ainda estava de tênis, mesmo que ensopados e cheios de sal.
– Serei cuidadoso. – Minato largou o colete de Kushina e pegou o seu.
– Vai cortar os pés, e sabe disso. Algum bicho pode te picar.
– Não há o que fazer. – Minato apalpou o próprio colete, e então o jogou ao lado do dela. – Olha o que eu achei.
Segurou dois espelhinhos e dois apitos idênticos, presos por fios.
– A maioria dos coletes salva-vidas inclui um apito e um espelho, para sinalizar durante os resgates – comentou ele, como se estivesse lendo um manual de sobrevivência. Minato sorriu com os lábios rachados, infantil no seu prazer, fazendo-a pensar nos filhos.
– Estes espelhos podem ser de muita ajuda, não apenas por guiar veículos de resgate. É razoavelmente fácil fazer fogo com um deles e bem mais eficiente do que dois pauzinhos – explicou.
– Não vou ficar aqui enquanto você anda por aí sozinho – contestou Kushina.
As sobrancelhas escuras de Minato se aproximaram.
– Você parece obstinada. O seu queixo está empinado.
– Vamos trabalhar juntos.
– Para alguém que não se aguenta em pé, você está determinada até demais.
– Eu vou com você!
Olharam-se por um bom tempo. Kushina pensou que nunca antes o havia amado tanto quanto naquele instante, na verdade, nunca compreendeu o quanto ele a amava.
– E os apitos? – disse ela.
– O que tem eles?
– Qual a utilidade? Digo, agora que estamos fora d’água?
– Bem, em último caso, sinalizarmos um para o outro. Toma. – Minato deu um apito a Kushina. Ela o pegou, passou o cordão em torno do pescoço e colocou o apito na boca.
Hesitou antes de assoprar e lançou um olhar duvidoso para ele.
– Acho que apitar pode ser imprudente – disse Minato. – Pode existir alguma encrenca por perto, pronta para nos atingir. Talvez contrabandistas ou outro tipo de pessoa com más intenções.
– Vamos pensar positivo – sugeriu ela. – Pode haver também pessoas boas que estão apenas aguardando um sinal para nos resgatar.
Ele grunhiu.
– Certo. Apite!
Então, Kushina assoprou com toda sua força. O som era alto, claro e penetrante.
O arvoredo parecia ainda mais silencioso depois que o som parou.
– Bem, não vejo nenhuma boa pessoa – disse Minato.
– Nem contrabandistas.
Neste exato momento, ouviu-se um barulho na mata.
Miauuuu.
– Meu Deus – disse Minato enquanto uma criatura magricela surgiu e começou a se esfregar nos tornozelos de Kushina. – É um gato.

Comentários
Postar um comentário