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Por que você não me nota?
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Click-click-click-click-click-click-click.
Não, pensou Kushina Uzumaki ao ouvir aquele som. Não, não era possível. Ele não iria…
Mas os ventos uivantes e a chuva que açoitava o navio já haviam acalmado o suficiente para que, por trás do arco que separava os cômodos da cabine, ela pudesse ouvir levemente:
Click-click-click-click-click-click-click.
Kushina olhou para o relógio ao lado da cama. Já passava das 2h. Esperara metade da noite para que Minato terminasse. E quando ele finalmente dissera que estava tudo pronto, Gwen correu para vestir algo mais sedutor… e ele voltou direto ao trabalho.
Gemendo de frustração, ela deslizou até a beirada da larga cama. Por quê?, pensou. Por que ele se deu ao trabalho de vir comigo neste cruzeiro?
A resposta, claro, era simples: Minato sabia que, se não fosse, ela jamais o perdoaria.
Com um suspiro profundo, Kushina deitou na cama e fitou a claraboia. A chuva martelava o vidro, o céu estava escuro e carregado de nuvens espiraladas e ferozes. Era a segunda noite deles nas Bahamas e uma feroz tempestade se aproximava. Uma ventania, segundo o capitão. Nada com o que se preocupar muito. Até a manhã seguinte, já a teriam atravessado e seguiriam por mares cintilantes, com sol radiante, ilhas imaculadas e praias de areia tão branca e fofa quanto farinha peneirada.
O navio de passageiros Konogatô possuía 257 pés e 47 cabines. A embarcação oferecia um tour de 13 dias pelas ilhas do arquipélago do Caribe, indo das Bahamas à Trinidad e Tobago. Devido ao pequeno porte, levava os turistas a locais que navios maiores jamais chegariam. Conseguia atracar em praias desertas, portos pitorescos, e dava a chance dos passageiros conhecerem vários portos de escala exóticos.
Kushina providenciou a melhor acomodação para eles: a suíte do almirante, um refúgio forrado de madeira teca com todos os confortos de uma casa… ou até mais! Incluindo um aquário com luzes de neon habitado por um majestoso peixe-anjo, uma pia de mármore que combinava com a banheira de hidromassagem e até mesmo uma área coberta exclusiva no convés.
O objetivo era escapar, apenas os dois, sem os filhos que tanto adoram, longe das distrações do cotidiano, mais precisamente, da Usuzuna Architectural Design, a empresa da qual seu talentoso e motivado marido era sócio… com total dedicação.
Click-click-click-click-click-click-click.
Ah, lá estava novamente! O som que conhecia tão bem. Kushina conseguia ouvi-lo mesmo sob o esbofetear das ondas agitadas, o barulho da chuva, o uivo do vento, e as borbulhas feitas pelo ventilador do aquário.
Click-click-click-click-click-click-click.
O som do marido trabalhando no laptop.
É claro que Minato fez questão de trazer o computador, o celular e a pasta para a viagem que deveria ser uma fuga romântica. Ele ficou ao telefone durante todo o voo até Miami, e também em grande parte da noite que passaram na cidade. No trajeto até a Bahamas o uso do aparelho não era permitido, e não havia sinal a bordo do Konogatô. Contudo, o laptop não o deixara na mão. E, desde a noite passada, quando embarcaram, era possível acreditar que Minato era casado com o laptop e não com Kushina.
Minato Uzumaki não tinha tempo para sakê ou para se bronzear no deque sob o sol do Caribe. Nem mesmo para prestar atenção na esposa. Não! Estava muito ocupado encarando a tela do computador, arrebatado pelos desenhos preliminares de sua última obra-prima.
A chuva caiu mais forte. O vento soprou mais alto.
Kushina sentou-se repentinamente. Ainda não desistiria daquela noite. Estava vestida para seduzir com seu espartilho turquesa de cetim e renda, determinada conseguir a atenção de seu marido.
Ela se levantou. O chão se moveu sob seus pés quando mais uma onda atingiu o Konogatô. Mas não foi tão ruim. Nada com o que se preocupar. Não foi isso que o capitão dissera?
Kushina andou até a sala de estar da cabine, seu marido estava no sofá, o laptop aberto em cima da mesinha à sua frente. Tinha um olhar de total concentração que, mesmo depois de oito anos, fazia seu baixo-ventre tremer, arrancando-lhe suspiros de desejo.
Maldito!
Os ombros largos de Minato estavam ligeiramente curvados, o corpo inteiro concentrado no trabalho. Os olhos azuis se estreitavam, condicionados a focar na tela à sua frente. Ele levou um dos longos dedos até a boca escultural enquanto clicava no mouse com a outra mão.
Kushina se posicionou em frente ao aquário, bem na linha de visão de Minato, claro, se ele levantasse o olhar.
Mas ele não o fez.
– Hmm – resmungou Minato, ainda com os olhos fixos na tela. E colocou mãos com dedos longilíneos no teclado.
Click-click-click-click-click-click-click.
Kushina rangeu os dentes, fez o que esperava ser uma pose provocante e limpou a garganta. Duas vezes.
Na segunda, foi vitoriosa e Minato ergueu o olhar.
Sim! Estava olhando para ela! Minato a observava! Kushina conhecia bem o olhar, sabia exatamente o que aquele brilho caloroso significava.
– Kushina… – murmurou intima e suavemente, como uma promessa de todas as delícias que estavam por vir. Ela sorriu, sentindo o coração acelerar e Minato franziu o cenho. – Me dê mais cinco minutos.
E então aqueles belos olhos estavam novamente absortos pela tela do computador.
Era demais.
Kushina respirou fundo.
– Preciso de ar fresco – sibilou para ele.
Minato acenou.
– Só mais uns minutos, querida, prometo.
Kushina não ia começar a gritar. Não seria nada construtivo e não queria se rebaixar dessa forma.
Kushina deu meia-volta e foi até o dormitório. Vestiu uma velha camiseta cor-de-rosa, uma calça capri branca e tênis. Depois, pegou uma jaqueta impermeável rosa-claro e se dirigiu até a porta.
Minato nem desviou os olhos da tela quando Kushina marchou até a saída. E mal percebeu que ela bateu a porta.
Porém, minutos depois, assim que conseguiu resolver o problema que o atordoava, sua ficha caiu e tudo ficou claro.
Kushina havia saído. E estava muito irritada.
Ele passou a mão pelo cabelo e deixou o corpo cair nas almofadas do sofá, resmungando. Droga! Havia dito que precisava de apenas cinco minutos.
Nesse momento, o navio balançou. Uma onda enorme deve tê-lo atingido. O Konogatô era equipado com estabilizadores, ainda assim, sacudiu com força.
Minato se sentou ereto e fez um esforço para ouvir. A tempestade havia chegado com tudo. Agora que realmente estava prestando atenção, parecia ter um tufão lá fora.
Ele deu um salto e saiu a procura da esposa.
Minato precisou forçar – e muito – para que a porta do deque abrisse. Quando finalmente conseguiu sair, não viu ninguém. Apenas água voando por todos os lados, um furioso céu escuro e o negro, agitado e infinito mar. Minato lutou para continuar andando, brigando contra os socos molhados do vento e irritado com Kushina por ser tão tola. Agarrava-se à ira porque, caso não a sentisse, descobriria o quão apavorado estava por causa da esposa.
Minato gritava o nome dela repetitivamente, mas o vento parecia jogar a palavra de volta em sua cara.
Então finalmente viu uma figura encharcada de jaqueta rosa-claro. Kushina estava a estibordo, segurando firme. A distância entre eles não passava de três metros e Minato gritou seu nome mais uma vez, mas ela não ouviu.
Então, uma onda imensa surgiu a bombordo e bateu no navio com força, fazendo voar água por todo lado. Muita, muita água!
Em meio ao dilúvio, Minato perdeu de vista a figura de rosa.
E quando a onda finalmente baixou, Kushina havia sumido.
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