𝓕𝓵𝓸𝓻𝓮𝓼 𝓮 𝓬𝓸𝓼𝓽𝓾𝓶𝓮𝓼
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Itachi, Izuna e Sarada olharam para o estranho que tinham acabado de conhecer, calados por causa da timidez. Aos oito anos, Itachi era alto, como o pai, e tinha os olhos verdes da mãe. Izuna tinha seis anos e a compleição de um pequeno praticante de Kendo. Sarada, com apenas quatro anos, tinha personalidades e opiniões fortes. Ela sempre dizia exatamente o que pensava. Com longos cabelos escuros, olhos da mesma cor e feições delicadas, era muito bonita.
- Naruto Uzumaki vai morar conosco por algum tempo. Ele vai me ajudar a projetar os mais belos jardins de Konoha - explicou Sakura, sentindo-se uma impostora. Não acreditava que ele fosse capaz de projetar um canteiro de couve.
Itachi olhou para os pés. Izuna reprimiu uma risadinha. Finalmente Sarada disse:
- Você fala engraçado - disse ela, torcendo o nariz.
- Eu sou de Uzushiogakure - respondeu ele.
- Você vai brincar com a gente? - perguntou ela.
Naruto deu de ombros.
- Não sei. Do que você gosta de brincar?
- Gosto de plantar legumes.
- Eu também gosto de plantar legumes - concordou ele.
- Vamos mostrar o jardim a Naruto? - sugeriu Sakura apressadamente. - Vocês, garotos, podem mostrar-lhe sua árvore oca.
Izuna pareceu encantado, Itachi nem tanto. Não tinha certeza se queria que um adulto estranho fosse ao acampamento secreto deles.
- Vamos, Izuna - disse ele ao irmão, saindo correndo antes que os adultos tivessem uma chance de segui-los.
- Eles são muito animados - disse Naruto, cruzando os braços.
- Por que não calça botas e veste um casaco? Está bastante úmido.
Naruto saiu do quarto e voltou pouco depois, usando um par de botas de couro e um casaco de pele falsificada.
- Você não espera cuidar do jardim assim, não é? - indagou ela.
- É claro que sim.
- Mas as botas ficarão arruinadas.
- Então poderei comprar um par novo - disse ele, dando de ombros.
- Não faz sentido desperdiçar botas quando não há necessidade. Quanto ao casaco, você não tem um casaco mais surrado?
- Não.
Sakura respirou fundo, reuniu paciência e disse-lhe que eles iriam à aldeia e lhe comprariam botas, pelo menos.
- Diga-me, Naruto. Você já cuidou de muitos jardins?
Ele sacudiu a cabeça e deu um largo sorriso.
- Nunca. Observei minha mãe no jardim a minha vida toda. Mas tenho pouca experiência.
- Você quer aprender?
- Claro. Os jardins em Kaze no Gadēn são minha herança. Irei embora no fim do verão, levando comigo tudo que você tiver me ensinado.
- E em troca eu consigo duas mãos extras - disse ela, perguntando-se quem teria mais proveito naquela parceira improvável.
- Espero que sim - respondeu ele, com o rosto abrindo-se num sorriso outra vez. - Também espero deixá-la com algo especial.
Eles saíram para o terraço. Feito de pedra plana e de pedras arredondadas, e cercado por imensos vasos de plantas e arbustos, ele se estendia num caminho de pedra plantado com tomilho e ladeado com teixos nodosos podados em forma de bolas. As pedras estavam escuras e úmidas de orvalho, e a grama cintilava à luz rosa-alaranjada do fim da tarde. No fim do caminho de tomilho, além do velho e abandonado pombal, eles puderam ver um campo com vacas e o bosque além. Naruto olhou ao redor.
- É belíssimo - disse.
- Obrigada - respondeu Sakura. - Gosto dele.
Sarada seguiu-os pelo caminho de tomilho até o pombal. Era uma construção redonda de pedra pintada de branco, com um belo teto de madeira que terminava numa ponta como um chapéu chinês.
- Pombos vivem lá agora - disse ela. - Nunca fizemos nada nele.
- E não precisam fazer. - Ele encostou a mão na parede numa carícia. - É encantador do jeito que está.
- Estes bordos ao redor ficarão com um tom vermelho dos mais extraordinários em novembro. - Em seguida eles se afastaram. Um muro comprido estendia-se ao longo do gramado onde Sakura tinha plantado o coqueiro grande. - Andei podando-o, preparando-o para o inverno.
- Há muita coisa a ser feita, não é mesmo? - comentou ele.
- Sim, muita coisa.
Sarada estava interessada em mostrar a ele a horta, oculta atrás de um velho muro de pedra onde rosas cresciam no verão entre madres-silvas e jasmins. O portão estava emperrado. Sarada o empurrou com toda a força, mas ele não cedeu. Naruto inclinou-se contra ele.
O portão se abriu, levando a uma grande horta quadrangular, dividida por caminhos de cascalho e canteiros em forma de quadrado, onde crescia uma abundância de verduras. Os muros estavam repletos dos restos de clematites moribundas, rosas, glicínias e madressilvas. Os cães entraram correndo, espremendo-se entre as pernas de Sakura e o portão.
- Nós colhemos muitas coisas aqui - disse Sakura, observando a filha saltitar pelo caminho de cascalho, na direção do canteiro onde as abobrinhas já haviam crescido. Ela o conduziu sob o túnel de macieiras, com frutas vermelhas maduras espalhadas pelo chão. Naruto pegou uma e deu uma mordida.
- Está doce.
- As melhores são aquelas já mordicadas por insetos - disse Sakura. - Eles têm um excelente olfato para frutas mais saborosas.
Saíram da horta e passaram pela arcada na sebe. No centro do campo, um velho carvalho erguia-se como um galeão no meio de um mar de grama.
- É aqui que quero plantar um jardim selvagem - disse ela, imaginando-o cheio de cores da primavera. - Além, estão o rio Sumikari e a sua cabana.
- Posso dar uma olhada nela?
- Prefiro não mostrá-la antes de limpar. Estou envergonhada.
Ele a olhou com um brilho divertido nos olhos.
- Por que estaria envergonhada? Sou apenas um jardineiro.
Ela não pôde deixar de sorrir para ele.
- Você ainda não é um jardineiro - respondeu ironicamente. - Nunca vi um jardineiro usando caxemira.
- Não julgue as pessoas pela aparência. - Ele olhou para a árvore, onde dois rostos cor-de-rosa espreitavam de um buraco no tronco. - Ali está a árvore oca - disse, caminhando a passos largos pela grama. - Ela é mágica!
Sakura observou-o com a testa franzida. Havia algo de curioso nele.
Itachi e Izuna desapareceram dentro da árvore quando viram os adultos se aproximando. Sarada correu na frente, gritando para que a deixassem entrar.
- Eles estão vindo! - Sarada gritou e entrou no tronco pela abertura. Naruto bateu de leve na árvore como se ela fosse um animal.
- Este é um belo carvalho antigo - disse.
- Eu o adoro! - exclamou Sakura. - É um velho amigo. Imagine o que esta árvore viu em sua vida.
Naruto se curvou para olhar as crianças lá dentro. Estavam sentadas no escuro, como três pequenos piratas.
- Tem espaço para mim?
- Não, vá embora! - disseram elas aos brados, gritando de prazer. - Socorro! Socorro! É o Capitão Gancho!
Sakura deixou as crianças na árvore e levou Naruto ao pomar. Havia ameixeiras, macieiras, pereiras, pessegueiros e cerejeiras. O sol estava baixo no céu, projetando longas sombras sobre a grama. Eles andaram em silêncio em meio às árvores.
- Gosto mais do fim da tarde e da manhã - disse Naruto. - Adoro sua transitoriedade. No momento em que você as aprecia, elas passam. - Ele estalou os dedos.
- Venha, deixe-me mostrar a você onde quero criar o novo jardim. Um cottage garden cheio de rosas, tulipas e flor-de-íris.
Eles chegaram a uma área gramada fechada em dois lados por uma sebe de teixos. No meio erguia-se uma sorveira solitária. Eles pararam em uma das extremidades. Era um espaço amplo, grande o bastante para se criar algo admirável.
- A gente tem uma sensação boa aqui - disse Naruto.
- É verdade - concordou Sakura. - Faz muito tempo que quero fazer alguma coisa aqui. As crianças brincam no outro lado da casa ou no gramado junto ao canteiro anterior maior. Isso está oculto, como um segredo.
- Será um jardim secreto.
- Espero que sim. Um jardim-surpresa. Venha - disse ela com um sorriso. - É hora do chá. As crianças devem estar com fome.
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✏ Nota:
Tulipa, rosas (bara) e flor-de-íris (hanashobu) são bastante cultivadas no Japão, vistas como algumas das dez flores mais populares de lá.
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