Freedom - conto 6

 

Um conto Eremika

"Ele demorou um pouco para perceber que o seu coração batia de modo muito 
acelerado e que ele encontrava-se só naquele quarto. Ela havia ido embora."


Ela se remexeu mais uma vez sob o corpo forte dele tentando se manter controlada e calma, embora parecesse difícil naquele exato momento. Estava doendo demais, nenhuma sombra de prazer e excitação atravessava o seu corpo domado e, pelo que parecia, castigado.

Mikasa tentou sufocar um grito, mas fracassou quando Eren adentrou com ainda mais fúria o corpo dela. Aquele grito emitido estava bem longe do que seria um grito de satisfação por abrigá-lo mais uma vez em seu corpo.

Tudo parecia desconfortável, desde a corda vermelha amarrada fortemente a seu pulso na cabeceira de ferro da cama ao corpo feminino praticamente sufocado pelo pesado corpo masculino, até as penetrações rígidas e doloridas. Quase não havia espaço entre os pulsos e a corda que os amarravam, o que certamente iniciou atritos mais fortes causando uma forte dor; Mikasa não podia ver, mas ela sabia que os seus pulsos estavam feridos.

Não. Aquilo não era, nem de longe, prazer.

Eren a penetrou cada vez mais fundo, o rosto dele parcialmente coberto pelas longas madeixas. Mikasa tentou mais uma vez abafar os gritos que saíam conforme o seu corpo era tomado pelo dele, mas não conseguiu, mais uma vez. Quer dizer, não faria sentido tentar fingir que estava sentindo prazer quando, na realidade, era o exato oposto disso, e ela nem mesmo sabia o porquê. Ele nem ao menos se esforçou, mesmo que um pouco, para deixá-la satisfeita, para ambos ficarem satisfeitos, como em todas as vezes em que o seu corpo foi tomado pelo dele, principalmente naquele dia especial quando ambos se amaram para valer e puderam falar sobre seus sentimentos sem qualquer ressalva. O que havia acontecido para o Eren daquele dia ter desaparecido totalmente sem deixar qualquer vestígio?

Aquele Eren que dissera que a amava já não estava mais ali e parecia ter sido substituído por uma versão muito mais impiedosa do que o mestre dominador dos dias comuns que vivera com ela na cabana. Alguém impetuoso que não carregava mais nenhum traço do Eren que ela conheceu, do dominador que a satisfazia e nem do amante apaixonado que confessou seus sentimentos com todo o seu coração. Alguém que queria castigar severamente o seu corpo por um motivo que ela desconhecia.

Mikasa o observava de uma certa distância enquanto Eren olhava ao longe para a bela vista cercada pelas grandes muralhas e as altas montanhas. Ela sabia que tal contemplação não parecia apreciativo para ele, mas apenas um lamento, pois Eren almejava pela liberdade mais do que todos ali, talvez mais até do que ela. Talvez por esse motivo, sua ânsia desesperada em desprender-se da vida reclusa de antes o tivesse prendido numa jaula ainda maior de uma falsa liberdade. E foi a partir daí que tudo passou a ficar pior.

— Ah... não — Mikasa emitiu um gemido engasgado enquanto se remexia contra o corpo dele.

Eren cravou as unhas nos quadris dela, mantendo-a parada no lugar, e avançou com ainda mais ímpeto. Mikasa arquejou surpresa e dolorida, não somente por estar sendo invadida com tanta profundidade e fúria, mas principalmente pela corda que feria seus pulsos entrelaçados a cada arremetida. Ela não podia ver, mas pôde sentir um líquido viscoso se misturar entre os pulsos apertados e a corda áspera — e não parecia ser suor.

Ela não soube por que, mas seus pensamentos voltaram-se ao passado, nas lembranças de quando tinham seus amigos por perto, no tempo em que ela reforçava a si mesma que não havia mais ninguém importante em sua vida, somente Eren; o que com o passar do tempo passou a ser mentira.

Havia todo o processo de libertar-se dos traumas do passado e aprender a se acostumar com outras pessoas ao seu redor, que a queriam bem, que lutavam ao seu lado, e que a corrigiam quando era necessário. Com o curto tempo em que estiveram juntos, Mikasa passou a perceber que Eren não seria o seu único amigo e aliado, o único que precisaria de sua proteção nos momentos certos e que a protegeria em outros, o único com quem ela podia confiar e quem sempre estaria ao seu lado; ela havia encontrado mais.

O "mais" havia chegado trazendo Armin, Sasha e outros para a sua vida, cada um ocupando — mesmo que de modo sutil — um lugar em seu coração. Agora ela tinha um melhor amigo que era como um irmãozinho mais novo, alguém com quem ela sempre poderia contar, pois além de ser um rapaz inteligente, Armin tinha um enorme coração bondoso. E também uma melhor amiga, que também era como uma irmã, sua confidente e melhores sorrisos para quando Mikasa se sentisse triste e desesperançosa; Mikasa jamais pensou que pudesse ser tão próxima de outra menina, pois as duas únicas referências femininas haviam sido sua falecida mãe e a sua falecida tia Carla.

— Não... — Mikasa suplicou mais uma vez, contorcendo o corpo de modo que pudesse escapar da pressão e da força do corpo de Eren.

Ela queria escapar, terminar com aquela tortura, mas quanto mais se mexia, mais castigo o seu corpo recebia, desde os pulsos até a as estocadas primitivas que faziam seu corpo arder de dor por dentro e por fora.

Por que ele havia mentido? Por que havia dito com todas as forças que a amava enquanto faziam um delicioso amor, se agora o que ele demonstrava era o exato oposto?

Ela ainda se lembrava nitidamente de uma das primeiras noites que haviam passado juntos na cabana; ele disse que a odiava. Mikasa não havia acreditado, pois ela tinha esperança de que o verdadeiro Eren, o que a amava de verdade, pudesse aparecer. Enfim, esse dia havia chegado, mas todo o momento que ambos tiveram desapareceu tão rápido como se nunca tivesse acontecido.

De alguma forma, havia uma grande mentira no relacionamento deles. Talvez a grande mentira tenha sido por ele dizer que a amava, sendo que o ódio dentro de seu coração conseguia ser bem mais forte do que qualquer ponto positivo? Ou que ele tentava todos os dias odiá-la com todas as forças, mas seus pequenos gestos e seu coração pareciam dizer o contrário?

De todo modo, Mikasa havia adorado ouvir da boca dele que a amava, ser amada e adorada por ele naquele dia tão normal como qualquer outro, mas que havia se tornado tão especial, talvez o mais especial de sua vida. Há quanto tempo ela sonhou, almejou em ouvi-lo contar seus reais sentimentos por ela ao invés de sofrer dia após dia por pensar que ele a odiava, e agora lá estava ela pagando o preço.

Mas qual preço ela devia pagar?

Mikasa não havia feito nada de errado, Eren não havia feito nada de errado, apenas se uniram como dois amantes loucos de desejo e paixão fariam e, posteriormente, confirmaram esse amor. Entretanto, o próprio Eren que fazia que tudo o que tinham juntos, tudo o que sentiam, pudesse ficar ainda mais complicado e perturbador.

Por que ele havia ficado assim? Como? Quando?

Mesmo que o amasse com todas as suas forças, Mikasa não soube perceber a repentina mudança, ainda que talvez estivesse em sua frente todo esse tempo. Mesmo que o amasse, não podia continuar se fechando para o restante do mundo, para o seu pequenino e inocente filho por causa de Eren. Seria uma total loucura sequer cogitar em pôr um fim no que tinham juntos, mas seria ainda mais loucura de sua parte se continuasse a viver daquele jeito.

Mikasa tentou mais uma vez soltar um de seus pulsos daquela corda que a prendia e a torturava e arquejou surpresa e dolorida ao sentir a sua pele rasgar com o forte atrito. Mais um pouco e os nós ásperos da corda poderiam entrar em sua carne e causar um verdadeiro estrago.

— Não! — Ela disse, a voz mais alta e imponente enquanto seu corpo tentava com todas as forças repelir o corpo dele. — Eu não quero!

Não era um pedido ou uma súplica. Era uma ordem.

— Já chega! — A sua voz ficou ainda mais alta, quase como um grito engasgado.

A sua garganta doía, não somente pela voz quase falha, mas por tentar segurar as lágrimas que ela havia aprisionado na garganta por tanto tempo.

E finalmente, ele olhou para ela.

As mechas longas estavam úmidas pelo suor e algumas até mesmo emolduravam o rosto endurecido por uma emoção que ela só pôde identificar como raiva. Os olhos em brasa encaravam fixamente o rosto dela em evidente irritação por ela ter ousado desobedecê-lo.

— O quê? O que foi? — As perguntas soaram quase como um rosnado enquanto ele apertava o maxilar dela, a forçando a encará-lo.

Mikasa percebeu que o ritmo frenético do corpo dele contra o dela não só havia diminuído, mas havia parado de modo repentino, o que a aliviou de um certo modo, embora a dor de seus pulsos fosse ainda mais latejante.

Eren parecia totalmente contrariado. Mas a essa altura, Mikasa não dava mais a mínima.

— Você está me machucando! — Ela rosnou de volta sem nenhum medo de encará-lo, ou era isso o que ela pretendia.

"Você". Não "senhor". Não "mestre".

Eren continuou a fitá-la num mosto de irritação e surpresa. Ela já não mostrava a ele a mesma submissão e obediência de antes. Além disso, o par de olhos castanhos transparecia uma fúria quase intensa quanto a sua, por meio de lágrimas que ainda não haviam caído.

Mesmo com sua crescente irritação, Eren permitiu-se notar que havia algo de errado e seus olhos deixaram o rosto dela, pairando em seguida na direção acima deles, a que parecia incomodá-la.

Naquele instante, Eren pareceu cair em si, arqueando os olhos em surpresa e incredulidade.

Os pulsos dela estavam sangrando pelo forte atrito que as cordas haviam causado. As amarras firmes da corda estavam ainda mais apertadas do que deveriam e por isso ela estava machucada, ele pensou dando lugar ao remorso. Aquilo aconteceu por sua causa.

De início, ele queria gritar com ela e castigá-la pelo atrevimento; percebendo o erro que cometeu, queria pedir desculpas, mesmo que seu papel naquela relação não permitisse tal feito. Mas o que ele realmente precisava e deveria fazer naquele momento era desamarrá-la rapidamente e cuidar dos ferimentos antes que a situação pudesse se agravar.

Retornando à sanidade que deveria ter desde o primeiro instante em que havia se deitado com ela, Eren se retirou de dentro de Mikasa e levantou num pulo em direção à cabeceira, desamarrando os primeiros nós da corda com suas mãos ligeiramente trêmulas.

Apesar da rapidez, ele fez o que precisava fazer com muita cautela, pois poderia machucá-la ainda mais se a corda estivesse funda na carne. Contudo, por mais cuidado que tivesse, as suas mãos tremiam e ele ainda se encontrava nervoso, não só pelo clímax interrompido, mas por ter se dado conta do quanto a havia machucado, mesmo não sendo o seu real intuito.

Real intuito?, indagou algo em seu subconsciente.

Mas não tinha sido isso mesmo o que ele queria desde o início, machucá-la?

Sim, machucá-la como uma punição por ele ter sido fraco ao confessar a ela seus reais sentimentos e por ter se esquecido do seu principal papel naquela relação.

Mas o que ele mais queria não era amá-la desde o primeiro dia em que a viu? Não, a mesma voz em seu subconsciente respondeu, sendo o mais verdadeiro consigo mesmo; era subjugá-la.

O movimento de suas mãos tornou-se mais lento com o pensamento e a corda se soltou caindo próximo ao rosto de Mikasa enquanto o semblante dele transparecia surpresa e horror consigo mesmo. Ele havia estragado tudo.

Sem esperar mais um minuto sequer, Mikasa pulou em direção à parte oposta da cabeceira, embora a dor vinda do ferimento de seus pulsos estivese lhe consumindo. Ela queria ficar o mais longe possível dele.

Mikasa ergueu seus pulsos até onde seus olhos marejados podiam ver.

Era como se eles estivessem presos por algemas em brasa e todo o arco de seus pulsos tivesse sido queimado. Quem realmente amava, não fazia aquilo. Já era o momento de dar um basta, ela pensou ao sentir mais uma lágrima cair. Em definitivo.

— Venha comigo — Eren levantou-se da cama em direção onde ela estava.

A expressão de seu rosto parecia seria e imponente como sempre; alguém que tinha tudo sob controle.

— Eu vou cuidar disso.

— Você não vai "cuidar" de nada — Mikasa disse com a voz tremulante, evitando ao máximo olhar para o rosto dele.

Ela não tinha mais medo, somente raiva. Contudo, sentia mais raiva de si mesma por ter se deixado ir até esse ponto. E no fundo, ela sentia medo por talvez mais uma vez não conseguir resistir a ele.

— Eu mesma posso fazer isso — Ela acrescentou em dúvida se levantava da cama e corria porta afora ou se prendia àquele lado da cama numa tentativa de estar fora do alcance dele.

— Não seja teimosa. Você não pode fazer isso sozinha.

Embora o semblante dele estivesse sóbrio e impassível, a sua voz não indicava a rudeza de outrora. Para dizer melhor, indicava um relevante grau de preocupação.

Sim, pois mesmo um mestre frio e sem sentimentos deveria mostrar atenção e cuidado com sua escrava obediente.

— Eu não quero que você chegue perto de mim — Mikasa avisou num murmúrio, mas pausadamente para que ele entendesse. — Eu mesma posso fazer isso.

Eren a observou sair da cama e andar errante em direção à pequena cômoda que abrigava poucas das roupas que ela tinha na cabana. Afinal, ela não precisava de muito já que os corpos de ambos se conectavam praticamente a todo momento, sem muitas pausas ou tréguas.

O par de olhos verdes recaiu sobre o corpo dela.

Ainda podia ser notada cada gota de suor correndo desde os seios fartos até um pouco abaixo das pernas.

Ela ainda estava tão linda e maculada após o sexo, embora nada tivesse saído como ele queria — ou era isso o que ele se forçava a pensar. Já o vermelho profundo dos pulsos contrastava com o restante do corpo dela. Aquilo havia sido feito por ele; a parte desejada e a parte punida.

Mikasa agarrou algumas peças de roupa com muita dificuldade, pela dor e pelas mãos trêmulas, e fechou a gaveta.

Dali, iria direto para o banheiro sem sequer desviar o olhar para um ângulo específico. Ela não queria olhar para a cara dele, por raiva e por saber que talvez não fosse forte o suficiente. 

— Você disse que pode você mesma cuidar dos ferimentos, mas não vejo como faria isso — A voz grave dele soou logo atrás. — Você mal consegue segurar as roupas. 

Aquilo não era mentira. Mas ela não se deixaria levar pela prepotência dele.

— Não precisa. Eu consigo me virar sozinha.

Ela torceu em silêncio para que a sua voz soasse alta e convincente o bastante. 

Eren exasperou contrariado.

Em dias habituais, ele a teria castigado pelo modo de falar e de se portar. Mas aquele dia estava sendo diferente, quase tanto quanto o outro, mas ambos com emoções diferentes. Ela não ousaria se comportar daquela maneira e nem ele permitiria, mas não poderia julgá-la agora pelo que ela estivesse sentindo, fosse dor física ou emocional. O mínimo que ele poderia fazer seria engolir seu orgulho e pedir desculpas.

Mikasa retirou-se rapidamente do quarto enquanto Eren permaneceu parado e nu no mesmo lugar, olhando fixamente na direção onde ela estava e parecendo bem pensativo.

Pela primeira vez em sua vida, ela não conseguia sentir mais nada ao olhar para ele que não fosse raiva e tristeza.

Mikasa abriu com o ombro a porta encostada do banheiro e entrou no recinto. 

Não haveria como trancar pois suas mãos estavam ocupadas e seus pulsos machucados, portanto ela só poderia contar com a sorte dele não segui-la até o banheiro. 

Mikasa pôs suas peças de roupa sobre o vaso sanitário e andou em direção à pia que tinha um pequeno espelho logo acima.

Ela observou a imagem pálida a fitando de volta com os olhos inchados e vermelhos pelo choro que ainda não veio. Não demoraria muito para que a barreira se abrisse, ainda mais ao pensar que provavelmente aquele seria o fim de tudo.

Mesmo que ela estivesse assustada ao pensar no que viria a seguir após a separação, mesmo que ele ainda fosse a pessoa mais importante para ela, esse seria o certo a se fazer; ou naquele mesmo dia ela daria um basta naquela situação ou nunca conseguiria fazê-lo e aí seria tarde demais. 


Eren vestiu-se apenas de uma calça folgada, pois não havia mais sentido em permanecer nu, afinal eles não continuariam o que fizeram antes — o que ele estava fazendo, para dizer a verdade. Por sua culpa, ela havia se afastado e agora parecia ser de vez.

Claro que não, ele pensou ao sorrir incrédulo.

Por mais magoada que Mikasa estivesse, ela nunca o deixaria por dois motivos: ela o amava e também tinha noção de sua posição naquele jogo. O amor que ela sentia por ele ía muito além do que ela sentiu ou sentiria por qualquer pessoa, mesmo até pelo pequeno elo entre eles; o que os afastava e o que os unia ao mesmo tempo.

Eren respirou fundo e observou mais ao longe da floresta fechada.

Ele a havia levado para lá por conta de ciúmes e sentimento de posse e desde então a fizera submeter-se a ele, não importasse como e por quanto tempo e ela aceitou porque o amava. Praticamente tudo o que ele fizera foi se aproveitando do forte sentimento que ela tinha por ele e em nem uma única vez ele fez questão de ser recíproco, exceto no dia em que havia confessado a ela o seu amor e ter se arrependido mais tarde por ter se achado fraco — como homem e como o dominante naquela relação. E por ter tido raiva de sua "fraqueza", lá estavam os dois naquele impasse insuportável.

Pedir desculpas seria o correto, Eren disse em silêncio ao sentir uma ponta de esperança. Pediria desculpas e tudo ficaria bem; talvez não como antes, mas possivelmente melhor.

Eren desapoiou os braços da janela quando ouviu a porta se abrir.

Lá estava ela, vestida com um conjunto folgado e confortável de uma blusa e uma calça, as mechas curtas arrumadas e desarrumadas ao mesmo tempo, os pulsos enfaixados com ataduras colocadas de mau jeito e, por fim, o rosto agora rosado quase vermelho por talvez um bom tempo em prantos.

Eren se apiedou e continuou a sustentar o olhar dela. Mikasa parecia indecisa, sem saber o que fazer ou o que dizer, ainda mais fragilizada do que no período em que esteve grávida.

Eren queria alcançá-la, ter o rosto dela em mãos, beijá-lo todo e pedir mil desculpas, dizer a ela que tudo ficaria bem, que poderia voltar a confiar nele, mesmo que esse processo demorasse um pouco.

E o que mais, dizer que a ama como fez da outra vez e logo se arrepender por sentimento de fragilidade?, questionou a voz em seu subconsciente, e ela não estava errada.

Mikasa aguentaria? A relação deles aguentaria outra punição vinda dele por razão tola?

Independentemente do que acontecesse ali agora, o que ambos tiveram por todo esse tempo estava por um fio.

— Fique onde está.

Mikasa obedeceu, não por ainda sentir-se submetida a ele, mas por querer saber o que ele ainda teria a dizer, o que ele realmente queria dela. Ela não se prenderia mais àquele lugar, em definitivo faria o que tinha de fazer, mas essa era a parte racional; seu coração, a sua parte emocional, queria olhar para ele por uma última vez.

Eren andou na direção de Mikasa como um predador que era, embora seus passos fossem cautelosos por conta daquele clima estranho que havia pairado entre os dois.

Mesmo tendo noção da fragilidade física e emocional dela, a derrubou com rapidez na cama e comprimiu o corpo dela sob o seu. 

O olhar de Mikasa era um misto de espanto com o amor que ela ainda sentia. Ele não queria assustá-la mais do que já fizera. Mas se fosse convincente o bastante, possivelmente o clima estranho entre eles poderia ser dissolvido.

Mikasa emitiu um forte gemido de surpresa e de dor ao sentir a mão firme dele envolvendo os braços dela e por sentir o seu corpo praticamente sendo esmagado pelo dele.

— É isso o que você quer, que briguemos desse jeito? — Eren indagou irritado, mas não tanto ao ponto de fazê-la temê-lo mais. — Que as coisas fiquem assim entre nós?

Mikasa demorou um pouco até responder.

Ela não conseguia sentir raiva do homem sobre ela pois o seu amor por ele falava muito mais alto. Do que ela tinha mesmo raiva era daquela situação, não dele. 

— Quem provocou isso tudo foi você — Ela respondeu num tom de voz fraco, mas firme. — Você me machucou de todas as maneiras que um homem pode machucar uma mulher. Uma mulher que um dia ele disse amar. 

Droga, ela estava chorando, Eren pensou consternado enquanto se mantinha acima dela.

Ele já a vira chorar várias vezes e até mesmo havia provocado muitas dessas lágrimas em outros momentos, mas ele nunca pensou que um simples gesto emotivo, como ver lágrimas caindo, pudesse lhe afetar tanto. 

Contudo, o que mais o afetou foi ouvir tais palavras dela, e nada do que ela disseram foi mentira. Talvez ouvir aquilo não o magoasse como ele a magoou, mas certamente o deixara completamente desconfortável, com a sensação de ser um lixo de pessoa. Talvez ele fosse isso mesmo.

— É, talvez você tenha razão — Eren disse após um bom tempo a observando atentamente e perdido em pensamentos. — Mas mesmo que eu seja esse monstro, você é diferente — Ele quase rosnou. — Mesmo que eu seja uma casca vazia sem sentimentos, você ainda me ama.

Ele sabia que havia soado prepotente, mas o que ele havia dito era verdade e ela não teria como negar.

Sim, ela o amava demais. Ele era o amor da vida dela, o seu amor de infância, o homem que sempre esteve ao seu lado mesmo nos momentos em que eles pensavam que seriam os últimos; o pequeno garotinho que salvou a sua vida. Que Deus a ajudasse a ter forças para fazer o que deveria.

— Sim, eu amo — Ela admitiu, a voz chorosa e tremida. — Mas só isso não basta.

Um lado dele queria tanto enxugar aquelas lágrimas com beijos e prometer a ela que tudo seria melhor dali para frente, mas Eren sabia que não era totalmente verdade pois o outro lado, o seu lado mais obscuro, ainda existia e sempre retornaria mais forte.

— Pode ser loucura reconhecer isso só agora, mas eu aprendi que eu também tenho de ser amada — talvez não por você, mas por mim mesma. 

Mikasa engoliu em seco numa tentativa de segurar o choro e ser forte, senão poderia desabar ali mesmo e dar lugar à fraqueza. 

Ela continuou:

— Que há um outro alguém que precisa de mim e que merece o meu amor. Eu o abandonei antes, mas nunca é tarde para recomeçar, para reconhecer o quão errada eu estava.

Um outro alguém.

Ela se referia ao Ethan, o bebê que eles conceberam e abandonaram um ano antes. O pequeno pedaço deles, o que os completava, mas Eren não via dessa forma. Pelo contrário, a fizera abandonar o próprio filho recém-nascido por puro sentimento de posse sobre ela e por nunca ter se aceitado como pai.

Era óbvio que para ela seria mais difícil a separação, afinal era a mulher quem carregava no ventre uma criança por nove meses, sentia dor para dar a luz e criava um sentimento ainda maior de aproximação e amor pelo filho através da amamentação e outros cuidados. Ele sabia disso desde o início, mas preferiu ser um egoísta de merda sem sentimentos.

E o seu maldito egoísmo permanecia, pois ele não queria que ela fosse embora. 

— Só me solte e deixe-me ir, por favor.

Aquilo não era um pedido, era um ultimato. O início de um doloroso adeus.

Eren não queria deixá-lá ir, mas algo mais sensato em sua consciência o fez soltar os braços dela e abrir espaço para que ela pudesse se levantar.

Ele observou em silêncio Mikasa pegar algumas coisas de que precisava e pôr numa pequena bolsa transversal como se apenas fosse à algum lugar, mas voltaria em breve.

Na cabana não havia muitas roupas para os dois, pois o modo como mais gostavam de passar o tempo era sem elas. Para onde Mikasa iria ficava a maior parte de seus pertences. Lá era a sua verdadeira casa, não naquela cabana, não com ele.

Inferno. Eren não sabia mais o que fazer e como deveria fazer; implorar o seu perdão por tudo o que fizera até aquele momento ou obrigá-la a ficar e ameaçar castigá-la como uma forma de se impor através do medo. Ele não sabia a qual lado dar ouvidos, mas sabia que independentemente do que fizesse, as coisas só poderiam piorar. Ele jamais a vira parecer tão decidida.

Ela iria sozinha atravessar uma longa e fechada floresta de enormes pinheiros ou ele a levaria?

Se ele a levasse, tentaria reverter aquela situação?

E se não parecesse convincente o bastante, ele a deixaria na porta e partiria dali ou enfrentaria o seu medo para mais uma vez olhar para o menino que tanto se parecia com ele? O seu filho.

Só o que Eren conseguiu fazer foi observá-la em silêncio com mil pensamentos passando em sua mente. Ele não conseguia se mover, não conseguia fazer nada.

Apenas admita que a ama!

Ele nunca sentiu tanto medo em sua vida quanto pensar em perdê-la.

Adeus, Eren.

Ele demorou um pouco para perceber que o seu coração batia de modo muito acelerado e que ele encontrava-se só naquele quarto.

Ela havia ido embora.


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